terça-feira, 13 de janeiro de 2009

APRECIAÇÃO DO LIVRO: “UM CONTO NO PASSADO... CADEIRAS NA CALÇADA”


Do escritor Raimundo Netto ( Prêmio de incentivo à publicação e divulgação de obra inédita, na categoria Romance pela Secretaria de Cultura do Estado do ceará – 2004 ).

Por Zinah Alexandrino



Fechemos as cortinas do presente e vamos para as páginas de “Um Conto no Passado... Cadeiras na Calçada.

“Senhoras e Senhores, bem-vindos ao vôo 737 da Gol com destino a Fortaleza com escalas em Brasília e Recife...” Essa fala seria para uma viagem à Fortaleza da atualidade, para onde vamos agora, viajaremos de bonde. Calma..! Não será no bonde “chamado desejo”, de Tennesse Williams; esse fica mais além no passado. Contudo, encontra-se estacionado aqui bem próximo à coluna da hora que fica na Praça da Feira Nova. Desliguem seus celulares, esqueçam seus automóveis ultramodernos que estão estacionados lá fora, os livros escritos nas páginas de seus computadores, porque, para onde iremos, essas invenções são objetos de mera ficção. Lá, a vida não quer pressa, por isso as pessoas ainda se sentam em cadeiras na calçada. Não fiquem temerosos! Podem levar seus objetos de uso pessoal: bolsas, relógios, jóias... Porque os ladrões vivem na zona rural e só roubam galinhas. E, além disso, há uma figura conhecida na cidade cujo nome é Levi que um dia desses subiu em uma mesa lá na Confeitaria Rotissérie e lançou sua candidatura a Deputado Federal, e ele promete que vai colocar na cadeia os ladrões da Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca (DNCOS). Lá ainda não se faz piada com Presidentes, Senadores e Deputados eles ainda não inventaram o “mensalão”. Visitaremos o poeta Juvenal Galeno que, certamente, o encontraremos “sentado numa rede com seu gorro azul na cabeça provando seu rapé, enquanto dita para Henriqueta, sua filha, alguns de seus versos”. Talvez encontremos também seus visitantes costumeiros: Dr.Quintino, Jader de Carvalho, Leonardo Mota e outros... E daremos uma “passadinha” pelo Cajueiro da Mentira, na Padaria Lisbonense, no Café Riche, na Confeitaria Glória, no Cine Moderno e na lanchonete Leão do Sul, onde aproveitaremos para degustar um delicioso caldo de cana.
Faremos umas comprinhas na Casa Mundlos, e nos hospedaremos na Pensão de dona Amélia Campos.E quando chegar à noite vamos para a tertúlia do Palácio da Luz.”Arre Ema”!(linguagem usada à época) Há tantas coisas para fazermos...

“Um Conto no Passado...” abre suas páginas à memória da antiga Fortaleza a partir do século XVIII, embora, o desfecho do romance ocorra no inicio do século XX, tendo, portanto como palco a nossa bela cidade, onde seu autor não se esqueceu de abordar fatos reais acontecidos à época, como a epidemia de varíola que assolou Fortaleza, fazendo 1004 vítimas. E o leitor fará essa viagem conduzido pelo seu personagem principal Américo Lopes, que narra sua história em primeira pessoa, com minuciosa riqueza de detalhes, feita através de uma fonte rigorosa de pesquisa, mostrando-nos uma Fortaleza ainda, com suas ruas descalças, nostálgica, quieta, boêmia..., através da memória involuntária, afetiva e ficcional de seu autor. Destarte, ele revela todo o seu desvelo por Fortaleza. E faz um resgate fotográfico do que rondava dentro das casas, como a máquina de costura, ”móvel de honra na sala”; os costumes antigos: os banhos de bica, a cultura do algodão seridó... Teve o cuidado de traduzir palavras do dicionário antigo, no rodapé, repassando-nos informações valiosas. Essas informações são tão apaixonantes, que quase esquecemos o contexto central do romance. Desse modo, Américo inicia sua narrativa: “Eu era apenas um garoto que me entretia sentado no cume de um frade-de-pedra, esquecido do mundo...” (pequenas colunas de pedra portuguesa que se colocavam à beira das calçadas para amarrar cavalos ou outros animais). E, em suas reminiscências, ele traz a lume antigas ruas como a “Rua Formosa”,do centro da cidade, atual Barão do Rio Branco; a “Botica do Ferreira”, ponto comercial pertencente ao Boticário Antonio Rodrigues Ferreira (1801-1859), Intendente de Fortaleza. A “Praça da Feira Nova”, antiga Rua do Cotovelo que mais tarde passou a chamar-se o que é na atualidade, a Praça do Ferreira em sua homenagem.

Foi com esse amor à nossa cidade que o escritor Raimundo Netto nos presenteou trazendo-a para as páginas de seu livro uma Fortaleza há muito esquecida pela maioria de seus moradores, em que ele faz com muita maestria uma fusão entre a ficção e a memória tal, qual a perspectiva de Proust na “Recherche”, cuja temporalidade ocupa um lugar central em sua obra. Assim como o autor citado, Raimundo Netto tentou refletir sobre as cousas que passam, se esgotam, se corroem e se perdem através da transitoriedade que caracteriza o fluir do tempo.

Viajem amigos, através das páginas de “Um Conto no Passado...”, e se perguntem por que não amar Fortaleza...? Américo Lopes, protagonista dessa história, perdeu a sua amada Olívia. Todavia, Raimundo Netto, resgatou a “sua amada Fortaleza”.

“Um Conto no Passado...” deve ser lido e apreciado não somente pela leveza da linguagem estética e a capacidade de criação do autor, mas, sobretudo, pelo seu valor historiográfico.

Um comentário:

joao bruno disse...

pow eu tenho 12 anos e li o livro quase todo e achei uma linda historia no começo entre olivia e americo eu senti como se fosse real na minha mente e o livro mais emocionante e lindo que uma pessoa ja fez que eu li obrigado autor por fazer essa bela historia